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Pilantras com o Ventor

O gato Ticas, nos trilhos do Ventor

Pilantras com o Ventor

O gato Ticas, nos trilhos do Ventor

A morte do rei Artur



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Pilantras - o Ticas

Eu sou o Pilantras - conhecido por Ticas, aquele gato amigo do Ventor a quem devo a vida e por isso lhe chamo dono.


Bem-vindos aos Blogs deste vosso novo amigo na Blogosfera.

Caminharei por aqui com o Ventor nas suas caminhadas, por este belo Planeta Azul

Não esquecerei, também, de acompanhar o Ventor nas suas caminhadas africanas, onde nos fala daqueles animais fabulosos que, na sua linguagem, nos dizem todos os dias que aquele continente também é deles.


Acompanharei, ainda, o Ventor nas suas caminhadas pela escuridão dos milénios, bem como não esquecerei as arrelias que o Quico teve com as desventuras dos seus amigos. E, claro, tenho um belo  Fotoblog, onde vos mostrei muitas das fotos do Ventor.



01.10.20

A Palavra Saudade


Pilantras

Olá, amigos!

Encontrei, por aqui, um gatafunho do Quico que apenas precisa de um aprumozito para ir direitinho, fazer uma caminhada na Net. Tudo sobre a palavra SAUDADE! E, começa assim!

"Como todos vós sabeis, eu sou um gato … e tudo o que sei, aprendi com o Ventor! Bem tudo, tudo, não! Algumas coisas vou aprendendo com a minha dona, mas o Ventor é quem, na realidade, me ensina quase tudo. Ele fala comigo e nas nossas conversas, entra a palavra saudade. Em termos humanos, eu sou um bicho gato equivalente a um bicho homem de meia idade. Por isso, o Ventor diz-me que ainda não sou massacrado pela palavra saudade.

O Ventor diz que é um saudoso de muitas coisas boas da sua vida e, na verdade, só tem saudades dos seus tempos em que a vida era difícil. Muito difícil!

Ele diz que, quando era criança, olhava profundamente os rostos enrugados dos velhos da sua terra, o Lugar de Adrão, que poderiam ser seus avós, uma vez que ficou sem avós por volta dos dois aninhos. Via as rugas quase com um século e o olhar profundo de olhos quase vidrados a deambular pelo espaço à sua volta. Hoje diz-me que tem saudades desses olhares projectados na sua direcção mas sabe que olhavam só para trás. Olhavam as caminhadas que tinham feito, nos seus espaços e nos seus tempos.

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Um braseiro para o outono-inverno. Para as castanhas e os cogumelos

Diz-me que tem saudades do borralho da sua casa velhinha, onde as chamiças de urze seca iniciavam uma labareda que ateava as achas e os canhotos de carvalho que vinham carregados às costas das profundezas do vale a que chamavam Assureira. O fumo subia rumo ao telhado e desaparecia ultrapassando-o. Muitas vezes esse fumo era o sinal de que a sua mãe punha um pote de ferro no braseiro onde começava a aquecer para fazer o caldo. Não esquece o cheiro das couves galegas a cozer e ainda por cima ele não gostava nada que era verdura. Mas gostava dos feijões, das batatas, do arroz, do macarrão e das carnes, especialmente da carne do porco que sabia que matavam barbaramente e, o Ventor, quando pequeno, chorava pelo seu porco dias seguidos. O porco ia recebe-lo quando aparecia com as vacas ou sem elas.

Gostava da carne de galinha, aquele animal companheiro que punha ovos e criava os pintainhos amarelos uma das maiores belezas que o Ventor encontrou no seu caminhar. Tem saudades de ver sua mãe mugir as vacas, e dar-lhe uma cafeteira com leite para levar ao cimo da aldeia a uma velhota com 90 anos a tia Piedade da Barreira e das festas que o gato velho dessa senhora lhe fazia de volta das pernas, pois o leite também era para ele.

Tem saudades da chegada das cabras que desciam a aldeia às marradinhas umas às outras, todas contentes por saberem que os seus filhotes pequeninhos as esperavam na corte, aos quais iam dar de mamar.

Tem saudades do Bolo da Pedra. A sua mãe colocava uma lasca de pedra de granito no braseiro onde aquecia e depois de muito quente aplicava-lhe, em cima, uma massa que ela fazia e que punha junto do braseiro a aquecer até cozer. Com esse Bolo da Pedra comiam sardinhas ou joaquinzinhos assados ou fritos, ou chouriço, ou barravam com manteiga feita do leite das galantas, as vacas que também eram a sua família.

Tem saudades de chegar a casa molhado e gelado e de sentir as mãos quentinhas da sua mãe a segurar as suas para as aquecer, de lhe dar uma roupa seca aquecida no lume do borralho e manda-lo sentar-se na sua cortiça junto do braseiro dando-lhe uma malga de leite, ainda quente, acabado de tirar de uma das vacas ou então, um pedaço de toucinho entremeado acabadinho de cozer para a ceia.

O Ventor diz-me que tem saudades do cheiro da lenha queimada, o fumo que, às vezes, quando a lenha estava húmida era exagerado e punha-o a chorar contra a sua própria vontade.

O Ventor tem tantas saudades que ainda há pouco tempo, sentiu que a sua mãe estava aqui, sentada na cama, a seu lado, a tentar falar com ele.

Eu perguntei ao Ventor se também ia ter saudades um dia quando já fosse velho, e ele disse-me que se calhar não, pois eu não tive uma mãe para me aquecer, para me dar beijinhos, para me bater quando eu me porta-se mal, para me dar o comer e por isso não sei se a minha mãe estará viva ou morta.

Mas eu acho que mesmo que eu não tenha saudades os meus amigos devem ter saudades das suas mães, pois elas também os ajudaram e os aqueceram e lhes terão dado bocadinhos do seu comer e os abraçaram para dormirem juntinhos. Eu vi isso tudo, mas eu era um gato abandonado e não acredito que fosse por vontade da minha mãe. Só gente má é que me poderá ter roubado à minha mãe.

Por isso, depois de ouvir estas coisas de que o Ventor tem saudades, gostaria de pedir às potenciais mães degeneradas que nunca abandonem os seus filhos. Lembrem-se que, se os abandonarem eles, um dia, nunca saberão o significado dessa palavra saudade uma palavra maravilhosa para o Ventor».

Eu, o vosso amigo Pilantras, também não tive nem tenho mãe, mas tenho o Ventor e a minha Dona que adoro e sei que eles me adoram também. Não fosse isso e tinham-me deixado morrer.